sábado, 5 de março de 2016

Parabéns, vô!


Mais um 15 de outubro. Mais um ano de vida, para um senhor que completava 86 anos. Idade avançada, talvez, mas com a mente e o corpo ativo. É conhecido na rua em que mora, há quase 40 anos, na Ceilândia-Sul (Guariroba) como “Seu Roldão”. Senhor, pai de 15 filhos, 11 vivos, avô de mais de 30 netos e bisnetos. Os vizinhos de longa data e a família sabem do seu amor por andar de bicicleta e de ônibus, principalmente depois da vida de aposentado e muitos anos trabalhando como carpinteiro. Quem nunca ouviu o comentário: “Vi seu Roldão ontem na Rodoviária do Plano comendo um pastel e tomando um caldo de cana”.

Sabendo que a data era especial, pois, o vô completava mais um ano de vida, a “filharada e a netaida” resolveram, de supetão, em uma quinta-feira, no final da tarde, fazer uma surpresa para aquele nobre senhor. Pelo Whatsapp e via telefone, organizaram rapidamente um lanche para comemorar a data. Aos poucos foram chegando à casa do anfitrião, cada um trazendo um pouco dos comes e bebes organizados naquela tarde. A porta da casa foi abarrotada com os carros, a rua ficou cheia, afinal são muitos filhos e netos. Cena estranha para um dia de semana, momento que a maioria das pessoas já estavam em suas casas, se preparando para dormir e ir trabalhar no outro dia. Mas para os Malaquias (sobrenome do patriarca), essa era apenas mais uma oportunidade da família estar reunida, matar a saudades, gargalhar bastante, já que tudo sempre foi pautado no bom humor e na alegria.

Os comes e bebes foram organizados, todos estavam à espera de Seu Roldão, que naquele dia tinha saído para passear e ainda não tinha chegado. A fome batia e do vô nem notícia. Nesse ínterim, caras de preocupação e risos da falta do aniversariante que não chegava no próprio aniversário. E o tempo foi passando. Foi ficando tarde e o coração de todos na mão, com medo que algo tivesse acontecido com ele. Saíram às ruas, ligaram na polícia, pois já era noite. Não sabiam por onde procurar, pois Seu Roldão andava muito de ônibus em Brasília e poderia estar em qualquer lugar do DF. Pela primeira vez, demorou mesmo a chegar.

Cada um foi procurar em algum lugar provável aonde ele poderia estar. Depois de 04 horas de espera, ele fora encontrado. O alívio foi geral. Estava no centro da Ceilândia, às 23h30, esperando um ônibus passar para chegar em casa. Uma das filhas o encontrou sentado em uma parada. Naquele horário, quase nenhum transporte público havia e, infelizmente, boa parte dos motoristas não para para idosos. Às 23h50, quase “cinderelo”, adentrava em casa. Os parabéns foram cantados, ele estava um pouco inerte. Os familiares aliviados de um dos maiores sustos de suas vidas, deram, naquela noite, parabéns para vida. Perceberam mais uma vez a necessidade de comemorar cada minuto da vida do vô. De como a vida é uma dádiva, que Deus dá a oportunidade, diariamente, de amar, abraçar e pedir perdão, pois o amanhã pode ser tarde. Parabéns, vô!

segunda-feira, 17 de março de 2014

Chegadas e Partidas

Várias histórias. Vários lugares. Várias pessoas. Ela respirava fundo e o coração batia incansavelmente. Ela era Maria. O coração apertado de Vinícius. Jonas saia correndo com os braços abertos. Roberta olhava o horizonte e se perguntava: “ Mais um desafio, será que darei conta sozinha neste lugar desconhecido?”, indagava. São histórias diferentes, mas acontecem em um mesmo lugar: na Rodoviária.

Maria estava à espera de Jonas, que sai correndo para abraçar sua noiva. Eles iam se casar naquela semana. Jonas, paulista, estava de malas prontas para morar em Brasília e viver seu amor. A inquietude dela era compreensível, já que ia unir-se a sua outra metade. As portas abertas do ônibus selaria um novo momento, uma nova vida e uma nova celebração para o casal. Nunca a abertura de uma porta foi tão esperada.

Rodoviária: Lugar amado por uns, detestado por outros ou vice e versa. Local onde pode-se ver pessoas de todos os tipos. Do salto alto a chinelos de dedos. A diferença às vezes se faz gritante, não pela vestimenta, mas pelos olhares que se chocam com o destoar das diferenças, já que o avião não pode ser pago por muitos e em muitos lugares não existem aeroportos. O jeito mesmo é pegar o “busão”.

Na janela do ônibus, dois olhares entristecidos cruzavam-se com os de Vinícius. Eram sua esposa e filho, Janaína e Lucas. Há cerca de dois meses, o casal descobriu que o filho de 04 anos estava com leucemia. Foi um choque. O tratamento só poderia ser feito em outra cidade. Janaína largou o emprego e Vinícius ficou, pois tinha que trabalhar e sustentar a família. Ele só poderia os ver quando pudesse e tivesse uma folga mais prolongada. A distância era grande e saudade maior ainda. Mesmo assim, dentro de seu coração a certeza que veria Lucas curado.

Roberta, aos 18 anos, vivia o momento mais decisivo e emocionante de sua vida. Veio de uma família humilde, que morava no interior do Brasil. A mãe era costureira e o pai agricultor familiar. Nenhum dos dois tinham terminado os estudos, foram até a 4ª série, mas sempre incentivaram a filha a estudar. Trabalhavam de domingo a domingo, pois sabiam que se não fizessem isso, talvez o futuro dela seria outro. Naquele dia, Roberta estava chegando a Brasília porque passara no vestibular de agronomia da UNB. Estava com saudades, mas matava os pais de orgulho.

A Rodoviária conta as histórias dos verdadeiros seres humanos, do dia a dia, do cotidiano. Histórias de amor, tristeza e às vezes até ódio, que nem precisam ser inventadas, pois são realidade. Chegadas e partidas. Idas e vindas. Como a vida realmente é. Nenhum conto de fadas, mas sempre de pés no chão.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O caminhar

O ar condicionado batia gélido nos braços. Como se paralisassem os membros do corpo. Ouvia sem parar os dedos batendo nos teclados do computador. Levantava a cabeça e via outras cabeças centradas nas telas dos computadores, trabalhavam como máquinas. Do nada ela pulava da cama e pensava: “Mais um sonho, quer dizer praticamente um pesadelo, baseado na realidade! Aff!”

Olhava para o teto, suspirava fundo, enquanto ainda estava enrolada nos cobertores. “Poxa! São 8h da manhã de um sábado e vou sonhar com trabalho!”. Naquele dia estava querendo ficar sozinha. Refletir sobre como a vida havia se tornado, pois até os dias que seriam “coloridos/felizes” (finais de semanas e feriados) estavam querendo ser tornar preto e branco, como de segunda a sexta (horário comercial). Não havia mais graça na semana e a luz no fim do túnel seriam os finais de semana.

Por que o trabalho havia se tornado um estorvo? Nem ela mesma sabia! O dia estava lindo, sábado de sol. Não queria ficar em casa. Foi fazer algo que gosta muito: Dirigir sem destino. Naquele manhã tomou um belo café da manhã e saiu pelas ruas da cidade. Começou a pensar: “Aonde irei? Por qual lugares passarei?”. Ela tinha mudado de cidade e decidiu passar por onde tinha morado anteriormente.

Dirigia intensamente, foi à casa de algumas pessoas, conversou um pouco e tomou café e comeu bolo. Novamente abria a porta do carro. E novamente a pergunta: Aonde eu vou? Resolveu, então, andar em locais que passou boa parte da vida: Escola, ruas, praças, casas que já havia morado. Neste momento, parecia que todos aqueles sentimentos guardados através do tempo voltaram, passaram com filme. Momentos e sentimentos que ajudaram a construir seu caráter e personalidade.

Lembrou-se de quando era menina. Morava em uma rua e tinha uma amiga, onde uma ia para casa da outra brincar, jogar bola, criaram até um “clubinho”! Até apertar a campainha dos vizinhos e sair correndo elas faziam, mesmo sabendo que poderiam levar uma bronca daquelas. Lembrar do garoto que era apaixonada e de quando tocou em sua mão pela primeira vez, mesmo tendo sido um amor platônico. Cada lugar, um sentimento, pessoas diferentes. Até mesmo pessoas que fizeram a diferença na vida dela, mas nunca mais as encontrou, algumas reencontrou por meio das mídias sociais, porém não é a mesma coisa, não se tem mais um contato pessoal.   

Assim, a própria história passava meticulosamente em sua cabeça. Lembra do tempo que não tinha preocupação com contas para pagar e outras responsabilidades da vida adulta. Que sua jornada até certa idade tinha sido muito boa, parte de seus sonhos haviam se concretizado, mas outra parte não. A vida estava estagnada de mais para quem viveu uma infância e adolescência de sonhos. Sabia ela que nada seria fácil, pois teve uma vida simples, caminhava até longas distâncias para ir à escola, não estudou nos melhores colégios, mas lembrava que parte dos estudos era feito pelo próprio estudante. Nem tudo que gostaria teve na mão facilmente, teve que correr atrás dos objetivos.

“A corrida da vida”, era assim que ela pensava. O mundo de competição, onde um quer roubar seu lugar, onde tudo que você cultiva na infância é esquecido: simplicidade e humildade. Isso foi percebido por ela enquanto dirigia. Muitos passavam com os carros em alta velocidade, davam luz alta, com pressa, querendo fazer uma ultrapassagem o mais rápido possível. Pressa em um sábado de manhã? Pressa de quê? Como se tivessem perdendo alguma coisa. Tempo talvez? “O tempo é dinheiro. Mas ter todo o dinheiro do mundo não paga a verdadeira felicidade, pois, nos é imposto, em um modelo de sociedade hipócrita, que felicidade é ter dinheiro”, refletia em sua mente, um pouco indignada.
Passou um tempo e lembrou do seu trabalho novamente. Viu que lá já não era mais seu lugar, trabalhava para pagar contas. 
A situação só não era mais drástica por conta das pessoas especais que lá conhecera e lhe acrescentaram muito como pessoa e profissional. “Tenho que trabalhar com algo que amo, pois assim todos os meus dias serão coloridos”, dizia. Um passo complicado de se dar, mas teria que ser feito. Sonhar com o sonho e realizá-lo. Ela precisava de sinceridade e de franqueza para se enfrentar e seguir em frente. Trabalhar com aquilo que lhe fazia se sentir plena, mas sem prejudicar alguém.  Naquele dia decidiu descobrir quem era ela mesma, viver a vida de forma plena e aprender que sempre tem algo de positivo em tudo. Foi assim que dormiu plenamente na noite de sábado, sem interrupções ou pesadelos. Acordou bem no domingo, recomeçou a viver e a responder a pergunta: “Aonde eu vou?”


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Exploração do Trabalho Infantil: prática mais comum do que imaginamos


As mãos estão calejadas, muitas vezes mutiladas. O calor desidrata, a fadiga muscular está no auge e a exaustão próxima. Dessa maneira, o corpo não aguenta e a morte é caminho certo. Quando damos essas características podemos imaginar algum tipo de trabalho insalubre. Mas o pior de tudo é quando não é feito por adultos e sim por crianças ou adolescentes. Atualmente, existe um tipo de trabalho que está inserido nessas características e chama a atenção: exploração do trabalho infantil, que é proibido por lei. Nenhuma criança ou adolescente pode trabalhar antes dos 14 anos.

Aquela criança que pede esmola, trabalha como aviãozinho do tráfico, perde e queima os dedos nas carvoarias é vítima do trabalho infantil. Infelizmente o lápis e os livros são trocados por uma foice para derrubar canaviais. Adolescentes que têm mais de 14 anos podem trabalhar, mas de forma a garantir os seus direitos e principalmente que a jornada não traga prejuízos à sua formação (escola), e a seu desenvolvimento físico e psicológico. Esse direito e outras regulações sobre o assunto estão garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no Capítulo V, do artigo 60 ao 69.  De acordo com dados realizados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2011, divulgada pelo IBGE, cerca de 3,7 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos estavam trabalhando no país em 2011. O número é ainda alarmante para o Brasil, que tem leis claras sobre o assunto. 

Essas vítimas, na pior das hipóteses, não estão em idade regulamentada por lei para trabalhar, não recebem remuneração, não vão à escola e são obrigadas a trabalhar por imposição dos pais, ou pelo medo de serem assassinadas por traficantes. Essas crianças e adolescentes fazem trabalho forçado e acabam sendo escravas do descaso. Vários são os fatores que contribuem para esta prática entre elas a pobreza, a falta de investimento do governo nas escolas e programas sociais para auxiliar essas vítimas. Mas o pior de tudo é quando os responsáveis (pais, parentes e familiares), que muitas vezes têm condições e sabem que estão errados, usam as vítimas para ganhar dinheiro sem escrúpulos.

O poema de Manoel Bandeira “Meninos Carvoieros” retrata muito bem essa realidade, que tristemente é vivida por muitos brasileirinhos por aí: “(...) Só mesmo estas crianças raquíticas Vão bem com estes burrinhos descadeirados. A madrugada ingênua parece feita para eles. Pequenina, ingênua miséria! Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!(...)”


terça-feira, 2 de abril de 2013

Vivendo e aprendendo


Com lágrimas escorrendo pelo rosto, molhando o casaco sujo e rasgado o adolescente de 17 anos dizia: “Não aguento mais essa vida, gostaria que os meus avós ainda estivessem vivos”. Falava ele escorado e sentado nos fundos da parede de um posto de conveniência na Candangolândia/DF.  

Encontrei o jovem citado por acaso, duas vezes, em menos de 15 dias. Na primeira vez estava indo na padaria comprar pão, ao sair do estabelecimento o rapaz disse: “Moça, você pode comprar um remédio para mim?”. Nesse instante, ele mostra seus dois dedos praticamente decepados, por algo que não sei até hoje. Vendo aquela situação, fiquei comovida. Tentei comprar o remédio, mas, ele não tinha a receita porque molhou. Infelizmente não pude ajudá-lo, mas pedi que ele se dirigisse novamente ao hospital. Neste dia, o adolescente ainda estava com roupas limpas e com uma bicicleta.

O outro encontro foi no posto de gasolina. Fui abastecer o carro e vi um rapaz, com uma jaqueta, bermuda e sandálias de dedos, todo sujo.  Ele até veio em minha direção, mas (reação já condicionada socialmente) busquei mudar o olhar para outro local, a bendita vista grossa. Depois parei para pensar: “Por qual motivo tive essa reação?  Que atitude ridícula da minha parte?”. Quando pensava nisso ele já tinha sumido de vista. Saí com o carro do posto e fiquei pensando na situação. Num rompante parei o carro em uma rua abaixo do posto e fui atrás dele, imaginado se poderia encontra-lo novamente.

Voltei ao posto a pé, já pensando que não ia acha-lo, mas o vejo encostado, na parede já citada no texto, com o olhar para baixo. Nem lembro como chamei a sua atenção. Quando o rapaz levanta o rosto, a minha surpresa: o garoto da farmácia.  Perguntei se ele lembrava de mim. A resposta foi um sim. Parei um tempo para conversar com ele, que me explicou os motivos de ter vindo da Bahia para o Distrito Federal. Um das razões foi a morte dos avós, momento que as lágrimas desceram do rosto do adolescente de apenas 17 anos e com uma vida muito difícil.

 Neste dia levei um soco na boca do estômago. Meus problemas não eram problemas, apenas meras dificuldades. Tenho onde morar, o que comer e sou vista pela sociedade como cidadã, já que pelo sistema uma pessoa que vive em situação de rua não existe, ou seja, é um ser invisível. Às vezes temos que parar de olhar para o próprio umbigo, ampliar os horizontes e dizer ao menos “oi” ou um “bom dia” ao próximo.  Às vezes dar atenção,  mesmo que em pequenas coisas, pode fazer a diferença para você quanto à pessoa que recebeu a ajuda.

O cubículo paciente


O ambiente é frio. Os corredores longos. Pessoas de branco e uniformizadas caminham sem parar em um desses corredores, afinal é apenas um andar de um prédio. A palavra frio se encaixa nesse ambiente, pois se trata de um hospital.

Na internação, quanto mais dias se passam, mais depressivos e cansativos ficam. Quem é paciente muitas vezes emagrece. É ruim ficar, mas enquanto os dias passam conhecemos outras pessoas que estão presas no cubículo que chamam de quarto. Histórias surgem. Os pacientes se tornam amigos e às vezes confidentes.
As perguntas são básicas:
- Qual é o seu nome? Ou melhor, sempre se pergunta primeiro o motivo de estar ali.
- Porque você veio parar aqui?
Outra pergunta é fundamental: E a alta, alguma previsão?

Na maioria das vezes a resposta é rápida: “Amanhã ou daqui a três dias”. Porém, outra é mais complicada: “Não sei...” Essa resposta é angustiante, pois todos ficam à mercê: os familiares, o doente e também os profissionais da saúde.  O ambiente é gélido, mas diversas vezes se esquenta nos momentos de melhora e recuperação gradual da saúde, ali paira a alegria. Todos torcem pela bendita “alta”.

Médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem sofrem com essa angustia.  Quanto mais o tempo passa criam-se vínculos, se tornam amigos.  Injetar, perfurar diariamente alguém não é fácil. Eles também torcem pelo dia da carta de “alforria”, a alta, a merecida ida para casa.
 Enquanto não chega, temos que ser literalmente pacientes para que esse dia não pareça tão distante quanto parece que é.

Cobertura de fatos ou revitimização?


Já ouviu falar em revitimização? Talvez essa palavra seja mais usada por psiquiatras e psicólogos. Porém colocada muito em prática na televisão, nos jornais e na mídia.  A revitimização ocorre quando alguém que passou por certo tipo de violência muito impactante é questionado de forma pontual sobre o que sofreu. Dessa forma, essa pessoa é levada a relembrar dos fatos trazendo à tona seu sofrimento e emoções quando passava a situação.

Agora, o que a mídia tem com isso? Alguém se lembra da tragédia de Realengo? Vamos recapitular rapidamente: 12 crianças que foram assassinadas a tiros em uma escola no Rio de Janeiro, no bairro de Realengo, por um ex-aluno.  Mais detalhes? Para quê? Já bastam as várias manchetes nas capas de jornais, edições praticamente inteiras nos telejornais, sem contar os programas sensacionalistas que mastigaram esse assunto durante muito tempo e assim também será para a morte de dezenas de jovens em uma boate em Santa Maria/RS.

A mídia, como nos idos tempos da Roma antiga de pão e circo, fez seu cerco na escola e mostrou milimetricamente cada detalhe do caso. Nós que somos apenas espectadores ficamos tristes com a situação, principalmente por conta da repetição dos fatos e imagens. Imagine quem presenciou o ato?

As crianças estavam apavoradas, os pais em desespero para saber o que tinha ocorrido com seus filhos. De uma hora para outra, pessoas comuns viram notícia. Os jornalistas ávidos por informações começaram a entrevistar quem estava por perto, nos arredores da escola. Mas aí, a falha: entrevistar as crianças que estavam dentro da instituição de ensino.

O dever dos jornalistas é informar, mas até que ponto? Esses alunos tinham acabado presenciar um ato terrível, viram amigos serem mortos e quase morreram. Estavam em choque. Chega um repórter (que está representando a ação da mídia) e pergunta: “O que foi que aconteceu lá dentro?”, “Como ele agia?”, “Como você se sentiu?”.  Questionamentos, principalmente a última pergunta, impertinentes para uma pessoa que praticamente teve sua vida violada. A criança responde e acaba sendo REVITIMIZADA.

Essa é uma situação muito complexa. Qual será o limite da linha tênue entre a notícia e a notícia sensacionalista? Vale a pena refletir.

Laiz Marinho.